Por que um iPhone?

15/12/2010 por Lucas Radaelli

Aos mais conservadores essa ideia seria absurda a primeira vista. Dar um aparelho touch screen na mão de um cego? Que seja entregue para um vidente um monitor que só permanece desligado, analogia mais do que válida para expressar um touch screen na mão de um cego, onde seria uma “folha em braille em branco”. Mas os tais conservadores não conhecem algo chamado tecnologia e criatividade e graças um novo conceito na área dos leitores de tela, é possível que um cego use um iPhone.
Para quem não conhece, o iPhone é uma série de aparelhos desenvolvidos pela apple” title=”[Vídeo] – Como cegos usam os aparelhos touchscreen da Apple?” rel=”follow” target=”_self”>Apple. Sua característica mais marcante à primeira vista é o design elegante e a falta de botões. O acesso às informações do aparelho se dá tocando nos itens da tela, o que conhecemos por touch screen. E aqui que surge sempre a dúvida mais frequente quando um cego ouve falar desse tipo de aparelho: “Tá, e agora, como é que eu vou saber no que estarei tocando? – Como é que acharei o item que eu desejo?”.
Todos os iPhones a partir do 3gs, rodando o IOS superior ao 3.0 terão integrado um leitor de telas chamado voiceover. Se você estava buscando argumentos mais do que aceitáveis para ter um iPhone, esse é o primeiro: O leitor de telas é gratuito!!! – Você não precisa pagar um preço elevado por um smartphone que tenha capacidade de processamento suficiente para rodar um leitor de telas, e o próprio leitor de telas para o celular que vai custar mais de 400 dólares. – O leitor de telas é de graça. Grátis: só tirar da caixa e usar, fui claro?
É tão estranho escrever essas palavras e relê-las depois. No ano que estamos, empresas tão grandes como as que existem, não disponibilizarem soluções de acesso aos seus produtos para todos. A Apple foi pioneira nesse assunto ao criar algo de qualidade como podemos notar no voiceover. E a cada atualização do IOS, novas características vão sendo adicionadas para que os cegos também acompanhem as novidades do aparelho. Genial.
Voltando ao ponto onde comentamos que o voiceover introduz um novo conceito na área dos leitores de tela e explicando um pouco do seu funcionamento, toda vez que você encosta um dedo na tela o item que você tocou é anunciado. O voiceover possui vários gestos para navegar entre os itens da tela. Por exemplo, se você fizer um movimento para a direita, como se estivesse limpando uma sujeira da tela, com o seu dedo indicador ele vai pular para o próximo item, e se o movimento for para a esquerda, o item anterior. Muitos outros comandos existem tal como alterar o idioma para ler um texto em inglês, soletrar uma palavra, ler um texto palavra a palavra, linha a linha, acessar um link não visitado de uma página, etc. Talvez nesse ponto já tenha ficado claro que é possível navegar nos itens da tela de duas maneiras distintas: usando os gestos do voiceover os quais acessam informações específicas – Ex: pular para o próximo botão, pular para o próximo campo de texto, etc. E apenas encostando o dedo na tela e ouvir o item que está nessa região. E esse é o novo conceito que o voiceover trás. Com o tempo, os deficientes visuais começam a memorizar a posição dos itens na tela, sendo fácil e intuitivo achar a informação que queremos.
Rodando nos smartphones atuais, os sistemas operacionais predominantes seriam o IOS (da Apple) e o Android (Da google) no topo. A Microsoft também possui o Windows phone 7 ou qualquer coisa do gênero, que nem vale a pena ser mencionado por não ter nenhuma acessibilidade inclusa ou externa. O sinbian está praticamente morto, e o seu leitor de telas mais famoso, o talks, está fadado ao mesmo destino. Descanse em paz, talks. Você foi um ótimo leitor de telas, o que não te ajudou muito, foi a plataforma e logo veremos porque.
Se tivermos agora que escolher entre um android e um iPhone, qual vai ser? Digo com toda a certeza: o iPhone. O android está engatinhando na acessibilidade. Talvez possamos dizer que mal deu os primeiros passos e não tem tanta vontade assim de continuar. . A nova versão do android (2.3, lançada a poucos dias da escrita desse texto), não trouxe nenhuma (NENHUMA!!) melhoria no leitor de telas. O que existe é uma série de aplicações desenvolvidas especialmente para funcionar com o talk-back (leitor de telas do android), que do contrário não teria capacidade de fazer nada. Como sabemos, desenvolver aplicações especialmente para deficientes visuais, ou para qualquer grupo minoritário, não é a melhor a alternativa. Claro que já foi usada, e ainda será usada em casos específicos, mas sempre que se pode oferecer acessibilidade inclusa na aplicação oferecida por padrão a todos os usuários, o resultado será muito melhor. O motivo é simples: aplicações desenvolvidas especialmente para deficientes visuais nem sempre possuem o mesmo “pique” de desenvolvimento de uma aplicação padrão, e novidades disponibilizadas aos usuários normais chegarão sempre tardiamente aos com necessidades especiais. Oferecer acessibilidade inclusa na aplicação é algo que depende em parte dos desenvolvedores. A maior parte está na forma que o sistema operacional disponibiliza as APIS de acessibilidade e a forma que o leitor de telas trabalha com essas informações. O que acontece com o Android é uma arquitetura de acessibilidade mal construída, e um leitor de telas que não consegue lidar com as poucas informações que obtêm. É por isso que se escrevem aplicações específicas para rodar com o leitor de telas do Android, porque as aplicações normais não conseguem se comunicar com o leitor. Vale exemplificar aqui o caso do talks para ilustrar o que eu quero dizer com arquitetura de acessibilidade bem construída e leitor de telas bem programado. O talks era um ótimo leitor, o problema que muitas aplicações que rodavam em sinbian não eram tão boas. Era comum encontrar aplicativos que impossíveis de serem usados com o talks. Ou seja, o leitor era bom, porque onde ele conseguia “funcionar” ele fazia bem o seu papel, mas em muitos lugares ele nem mesmo conseguia ter acesso a qualquer tipo de informação por causa da arquitetura do sistema mal feita.
No iPhone as coisas são diferentes. É raro encontrar uma aplicação que seja totalmente inacessível. A maioria delas são perfeitamente usáveis, e as falhas que sobram cabem aos desenvolvedores resolver. Os quais normalmente resolvem. Muitas vezes já mandei e-mails pedindo por melhorias em uma aplicação e fui atendido prontamente.
Nos meus 10 anos de experiência com informática, tecnologias acistivas, poucas vezes eu fiquei tão animado com alguma solução apresentada. Às vezes as notícias superestimam as reais capacidades de uma solução. Com o iPhone eu já fui com um pé atrás, porque de fato o touch screen a primeira vista parece ser algo impossível para um cego. Mas com o tempo ouvindo podcasts, lendo notícias de como o aparelho e o seu leitor de telas eram bons, eu testei e aprovei.
Se você me perguntar o que eu consigo fazer no meu iPhone com o leitor de telas dele, seria difícil eu te dar uma lista pequena. Mas só para ter uma ideia: leio meus e-mails, leio livros, uso o Skype, Msn, Twitter, Foursquare, navego na internet, atualizo meus blogs, ah, e é claro, faço ligações.
Agora é com você. Você sabe que essa solução existe, e que ela é fantástica no meu ponto de vista. Confira você mesmo e tire suas próprias conclusões, afinal eu não sou um representante de vendas tentando te vender algo, e sim alguém só dando um conselho.

5 Comments

  1. Excelente explicação e experiência. É realmente muito curioso que um cego use o iPhone, um aparelho que, pra quem enxerga, é nada mais que uma tela. E como um cego usa um aparelho que é só uma tela? Eu me perguntava.

    Somente após nossas conversas eu percebi que o iPhone, além de uma tela, tem também essa interface em áudio que, segundo você mesmo contou, é excelente :)

  2. Lucas Radaelli

    Eu mesmo as vezes me surpreendo com a agilidade que realizo certas tarefas. A um ano atrás, não diria que isso seria possível, usar touch screen. Mas é, e é muito agradável a maneira que isso foi implementado.

  3. Outra coisa legal do iPhone é o sistema de Zoom, que é bem fácil de usar e tem ótima qualidade

    Este vídeo mostra bem os recursos de acessibilidade do iPhone 3GS (também presentes no iPhone 4)

    http://www.youtube.com/watch?v=4apsIZCKXAY

    O iPhone 4 tem mais uma opção de acessibilidade, que é para aumentar as fontes dos textos de email e mensagem. Isso ajuda bastante quem tem baixa visão.

  4. Gabriel Aquino

    Puuuta que paariu!
    Quero um Iphone!

    O Lucas dizendo sobre essa acessibilidade, expressa tamanha satisfação, que chega a me invejar.
    Um aparelho desses facilitaria demais…..

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